Oposição à vacinação: um crime contra a saúde pública

 Hi, folks!

Em pleno século XXI, em plena era da tecnologia... causa-me espanto o quão poderoso ainda pode ser o movimento antivacina. Acompanhamos preocupados, mas não surpresos, a uma oposição feroz de parte da sociedade à vacinação pública. E embora sejam conhecidos os benefícios da prevenção de doenças infecciosas graves, os quais superam largamente os riscos de efeitos adversos raros após a imunização, pululam disputas sobre a moralidade (!), ética, eficácia e segurança da vacinação, por mais incrível que isso possa parecer. 

Críticos da vacinação  saídos dos confins da antessala do nonsense  afirmam que as vacinas são ineficazes contra doenças ou, ainda, que os estudos de segurança são inadequados. Alguns grupos religiosos não permitem a vacinação e algumas vertentes políticas se opõem à vacinação obrigatória com base na tal da "liberdade individual".

Impossível não trazer à tona o famigerado evento conhecido como "A Revolta da Vacina", ocorrido no Rio de Janeiro, no início do século XX, que resultou na revogação da vacinação obrigatória na então capital do Brasil. Nem a competência de Oswaldo Cruz e companhia foi suficiente para conter os ânimos dos revoltosos. Porém, justiça seja feita, o Brasil, após esse evento, caminhou relativamente bem no sentido de virar o jogo e, com o passar das décadas, atingiu certo sucesso em campanhas de vacinação com ampla aceitação popular. Quem aí não conhece o lendário Zé Gotinha, um brazuca raiz surgido na década de 80, que entrou com tudo em campanhas de vacinação contra o vírus da poliomielite em um primeiro momento, tornando-se um verdadeiro ícone junto às crianças? Recordo agora de tê-lo visto ainda sorridente em campanhas nos anos 2000, sempre um sujeito serelepe no esforço de conscientização dos pais e das crianças sobre a importância da vacinação. Que grande figura! 

Só que a maré virou... para pior. Silenciaram o Zé.

Utilizando a internet para propagação de ideias inacreditáveis e se assentando em teorias da conspiração tiradas de qualquer buraco cavernoso, o movimento antivacina dos nossos tempos arrebanha cada vez mais seguidores para a roda dos atrapalhadores.  

And now, for something completely different... estudos realizados por pesquisadores e instituições sérias não bastam. E mesmo que não pairem mais dúvidas no meio científico de que as vacinas sejam seguras, o que presenciamos, em maior grau durante o episódio pandêmico recente, foi a hesitação e/ou a negação de toda a comprovação empírica de séculos sobre o poder protetor das vacinas. Muito desse fenômeno se deve à falta de conhecimento científico do mais basilar misturado com fervor religioso de alguns membros de associações religiosas... e muita, mas muita politicagem. 

Mas engana-se quem pensa que essa postura só renasceu no Brasil dos últimos anos. A parada é internacional. Vou agora à América do Norte buscar um país famoso por sua postura antivax: os Estados Unidos. Pessoas daquele país também utilizaram um medicamento famoso que é comumente receitado contra parasitas, via de regra, para controle de pragas entre o gado. Lembro-me de ter lido em algum lugar (joga aí no Google), que sua utilização aumentou nos Estados Unidos durante a então onda de casos ligada à variante delta. Só para se ter uma ideia, receitas de ivermectina contra a covid nos EUA cresceram rapidamente a partir de julho de 2021, passando de cerca de 90 mil por semana até 13 de agosto daquele ano. Ah, lembrei a fonte! Pode ser verificado no MedPage Today (www.medpagetoday.com/infectiousdisease/covid19/94223?xid=fb_o&trw=no). Cito: “Scripts for the antiparasitic have risen rapidly since July, jumping to more than 88,000 in the week ending August 13, CDC researchers reported in a Health Alert Network warning. That's way up from a peak earlier this year of 39,000 for the week ending January 8, and a 24-fold increase over the pre-pandemic baseline average of 3,600 scripts per week from March 2019 to March 2020. Related calls to U.S. poison control centers have kept pace, rising three-fold in January of this year (compared with the pre-pandemic baseline), and spiking five-fold over baseline in July, according to the researchers, citing data from the American Association of Poison Control Centers. Absolute numbers were not provided."

Conduzidas pela desinformação, muitas pessoas ingeriram ivermectina (e cloroquina) sem dó na tentativa vã de prevenir a Covid-19. O B.O. é que entre os efeitos do uso indiscriminado do medicamento, constam alterações e problemas mentais, por exemplo. A literatura científica é farta em descrever pacientes que apresentaram confusão, tontura, alucinações, apnéia e tremores. E o B.O. prossegue... médicos paulistas, dentre outros, mostraram que o uso indiscriminado de ivermectina provocou danos no fígado em pacientes brasileiros, chegando a gerar a necessidade de transplante do órgão. A substância causou lesões irreversíveis nos dutos biliares, impedindo a bile ser eliminada e provocando infecções. Há de se ressaltar, no entanto, que existe uma tendência de que em boa parte dos casos as pessoas se recuperem após alguns dias de internação; mas para quê correr esse risco desnecessário? Enfim, nada de bom pode ser extraído dessa estratégia kamikaze. Nada mesmo. O conceito de estratégia... em grego strategĭa; em latim, strategia; em francês, stratégie… Os senhores estão anotando?

Por fim, permito-me fazer um exercício mental. Brinco aqui com a hipótese da viagem no tempo. Imagino agora um cenário no qual o mais genial dos nossos médicos, Oswaldo Cruz, pudesse se mover para trás ou para frente através de pontos diferentes no tempo em um modo análogo à mobilidade pelo espaço-tempo. 

Pois bem, se Oswaldo Cruz pudesse ser trazido aos dias que correm no Brasil, o que faria ou diria? Provavelmente, entraria no campo de batalha na condição de um dos maiores médicos da história humana, e apoiaria a vacinação em massa. E também, provavelmente, assim como no Rio de Janeiro de 1904, vários políticos e uma mídia chapa branca lançariam furiosos ataques contra suas proposições. Boa parte do Congresso se manifestaria contra a feliz estratégia de Cruz e até uma liga antivacinação específica seria organizada. O homem seria tratado como a escória de tudo. "Comunista!", diriam eles. Ele talvez até postasse em suas redes sociais: "Sou atacado e rogo. Até ao presente, cheguei a ser como o lixo deste país e como a escória de todos". Sim, este seria o cenário mais provável. Não duvido. 

Cabô. Vacinem-se!

Oswaldo Cruz lutou contra a barbárie em 1904 e lutaria novamente.

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